Rapunzel

Difícil ouvir falar de alguém que não conhece a história da Rapunzel, com sua célebre frase “jogue suas tranças, Rapunzel!”. A versão mais conhecida do conto é aquela escrita pelos Irmãos Grimm, em 1812, onde uma bruxa (Gothel) rouba uma criança e a aprisiona numa torre sem portas ou escadas. Para subir, Gothel ordenava que Rapunzel jogasse suas tranças, vivendo dessa forma até que, um certo dia, cavalgando pela floresta, um príncipe ouve Rapunzel cantar, se apaixonando por ela e encontrando-a secretamente, até que a bruxa descobre, jogando sobre ele um feitiço que o faz cego. Mas, como em todos os contos de fadas, o amor é mais forte e, com as lágrimas de sua amada, o príncipe recupera a visão, vencem a bruxa e vivem felizes para sempre!

Essa é, obviamente, uma das muitas versões deste conto. Se engana quem pensa que os Irmãos Grimm foram os primeiros a escrevê-lo. Versões similares do conto são vistas na Itália e na França, com apenas algumas modificações. Rapunzel começou, na verdade, como um conto chamado “Persinette”, escrito por Charlotte-Rose de la Force, publicado em 1698. Foram escritos outros contos antes de Persinette, como “Petrosinella”, de Giambattista Basile (caso se interessem, no Google é possível achar essas versões, embora a maioria esteja em inglês).

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Como dito em posts anteriores, todos os contos de fadas possuem nas suas histórias associações com a época em que foram escritos. Portanto, estes são intimamente ligados tanto com a identidade das pessoas da época, quanto com a sua cultura. Vemos sempre as heroínas frágeis, o homem (o príncipe perfeito que as mulheres até hoje procuram!) forte e destemido, pronto para ajudá-la, sendo apenas as histórias mais atuais (como Mulan, por exemplo) onde a mulher realmente se impõe.

Aqui, visamos analisar as diferenças na identidade das personagens (sobretudo as heroínas) e como a mudança cultural das primeiras versões dos contos até as adaptações atuais se refletem nas tramas.

Primeiro, podemos pontuar que, com toda a revolução tecnológica do século XXI, os livros perdem cada vez mais espaço (embora particularmente não compartilhe dessa visão), sendo as adaptações agora não mais orais, como na época medieval em que os contos surgiram, ou escritas, mas cinematográficas. No caso de Rapunzel, essa adaptação ganhou muito espaço na atualidade, quando foi lançado, em 2010, o filme Enrolados (em inglês, Tangled), produção da Disney.

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Pelo comprimento dos cabelos, o filme já é associado ao conto, e também na própria história os elementos principais ainda estão presentes. Menina capturada por uma bruxa que a prende em uma torre, cujo sonho é escapar e conhecer o mundo. Nessa adaptação Rapunzel possui cabelos mágicos, e se engana quem acha que isso é uma inovação no conto, pois em uma versão anterior (não a dos Irmãos Grimm), Rapunzel possuía um cabelo mágico, que crescia e mudava de cor conforme sua vontade.

Enrolados mostra uma versão do conto onde Rapunzel enfrente aventuras com o seu “príncipe”, um cativante ladrão em fuga, tirando essa ideia de que o príncipe é aquele homem perfeito antes descrito. Essas aventuras trazem também mais entretenimento para os telespectadores, de todas as idades, que assistem ao filme relembrando – no caso dos mais velhos – os contos que ouviram/leram em sua infância, além de mostrar uma Rapunzel mais “atrevida”, esperta, que foge e enfrenta diversas situações, até lutando com o príncipe que invade sem querer seu castelo, capturando-o.

Traçando esses parâmetros, podemos perceber que houve uma mudança significativa na identidade da sociedade atual, apresentando aspectos diferentes de se encarar o amor perfeito e a ideia de príncipe, até o modo como a princesa, antes submissa, age.

Como uma última observação, é que com essa adaptação achei que a história original ainda prevaleceria e não sofreria nenhuma ameaça de ser esquecida, mas ao pesquisar Rapunzel no Google, 90% das imagens se referiam ao filme Enrolados, não ao conto original. Além disso, conversando com meu primo de 7 anos, perguntei se ele tinha assistido o filme e se sabia do conto original, ele respondeu que sim. Ao perguntar se ele já tinha lido/ouvido o conto original, sabendo do que se tratava a história, ele disse que não. Isso me faz pensar, será que os contos de fadas serão em breve substituídos por essas versões cinematográficas atuais, que se adaptam com a cultura em que estamos inseridos?

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